Pessoas, personalidades e personagens exêntricras

Conforme foi dito anteriormente em Icaraí, mais precisamente na praça e no Le Petit, Bar Chalé e proximidades, se reuniam as lideranças locais e pessoas que não tinham posição política, pois Niterói era uma cidade onde todos se conheciam. Uma figura conhecida aqui era o Robertinho apelidado carinhosamente de Robertinho Sacanagem devido as suas gozações. Certa vez o mesmo roubou um ônibus elétrico e dirigiu nu pela praia sob o efeito do álcool, dava gritos contra a ditadura, não foi preso por um milagre e foi logo vestido. Tinha o Zézinho, que apareceu do nada, sob acusação de ser agente do SMI pelos mais desconfiados. Ficava semanas sem tomar banho e vivia dos trocados dados pelo pessoal. Era muito culto e foi o mestre intelectual de famoso antropólogo niteroiense de renome internacional inclusive. De repente apareceu com o dinheiro de uma suposta herança, morreu enlouquecido devido às drogas. Certa vez, vendo dar gritos na Amral Peixoto, chamei sua atenção e o mesmo pegou um ônibus no momento de lucidez e foi embora. Tinha o Alan, professor de inglês e americano de origem, que dizia ter sido da legião estrangeira, com enorme tatuagem no braço esquerdo. Não gostava de polícia e provocava um comissário chamado Nílson que rondava por lá. Um saudoso bola preta, um negro alto e gordo, bom cantor e violonista, para desespero do dono do Le Petit, certa vez quebrou o violão na cabeça de um rapaz que cantava a música "Eu te amo meu Brasil", verdadeiro hino governamental da época. Ao lado do Petit residia o Dourado em uma mansão, sendo um futuro radialista. Construiu um barco por distração e o mesmo ao ser colocado no mar, afundou logo, para gozação geral. Foi o suficiente para o comissário Nílson entrar na sua casa à procura de supostas publicações clandestinas. O Nílson não era do DOPS e ao revistar Miguelzinho Karatê, que fazia piadinhas, levou uma surra do mesmo e de muitos outros. Luiz Antônio Pimentel era um dos intelectuais que iam na praçinha, chegando futuramente a ensinar literatura japonesa ao amigo Tanaka, falando no idioma oriental. Membros do conjunto MPB4 também lá iam bem como o Silveira, que teve um convite para ir com Sérgio Mendes para os EUA. Não foi, teve uma música gravada por ele e infelizmente morreu sozinho em um asilo. Nesta época, no final da década de 1960 e na década de 1970, boletins clandestinos circulavam em Niterói falando e denunciando dentre outras coisas, que o marechal Castelo Branco, quando tenente, se distraía ao ver soldados escorregarem em cascas de banana. Seu avião teria sido abatido por um piloto que jogou o seu contra o dele devido à perseguições sofridas por seu pai. O direito dos EUA em intervirem militarmente no Brasil também teria sido acordado por ele. Delfin Neto, o todo-poderoso ministro da fazenda, mentia nos dados inflacionários para conseguir dinheiro emprestado no estrangeiro. O encarregado de distribuir essas publicações era o Cássio, militante do futuro MR8. Finalizando este tópico, quero frisar que em uma atitude corajosa, o Luiz Sérgio, atuante da esquerda, defendeu as forças armadas dizendo que em sua maioria, os oficiais não aceitavam nem participavam das atitudes erradas cometidas por seus líderes.
Aliás, o comandante do exército em certa época, revoltado, determinou o fim das possíveis torturas e a punição dos seus executores. O fato é que vivíamos em um regime de exeção, com censura prévia e pouco se podia fazer para por fim ao desrespeito aos direitos humanos. Daí a importância da igreja católica, que tornou isto público internacionalmente. Também foi publicado para revolta geral a denúncia que um morador de Copacabana foi preso e enquadrado na lei de segurança nacional pelo fato de chamar o seu cachorro de estimação de Castelo Branco, ato considerado de suma gravidade pela repressão na época.

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