Nossas livrarias e assuntos comentados

A juventude comprava livros em grande quantidade nesta época, os autores preferidos eram Max, Lene, Sartre, Roger Bastider, Alceu De Amoroso Lima, Caio Prado Júnior, Nélson Sodré, entre outros. Na livraria universitária LUF, localizada na reitoria, o livro "O estado e arevolução", de Lene, bem como "O livro vermelho", de Mao, eram vendidos clandestinamente. "A Incíclica Do Papa João XXIII" também era muito lida pelos católicos atuantes. Não sabiam os estudantes que na União Soviética se cometiam as mesmas barbaridades que se faziam no Brasil por militares que manchavam a farda, pois os jovens, como eu, acreditavam inocentemente na liberdade na União Soviética. Na livraria Arte e Ciência, a jornalista Liziane Cunha arrecadava fundos para ajudar os presos e foragidos políticos. Se iniciava a organização da revolta contra a ditadura através das guerrilhas cubanas. Eu que militava como repórter, fiquei frustado por não poder divulgar na imprensa local o fato de que o Brasil teria dado em uma remarcação de fronteiras, dando um território muito grande para a Bolívia em um acordo supostamente secreto, conforme me falou um tio que foi presidente da Embrapa. Porém, falávamos isso e outros assuntos ao "pé do ouvido" nas livrarias. Tinha um professor de engenharia que ensinava como se fazer armas. A caso da filosofia, também era por nós frequentada. O livreiro Aníbal Bragança, pessoa de maior gabarito intelectual e moral, permitia que os universitários comprassem livros nas livrarias Diálogo e Debates, pagando quando quisesse e como pudesse no final do mês. Certa vez, na livraria Arte e Ciência, dois portugueses após fazerem amizade comigo e com meu grande amigo Luís Plauto De Olivera Pinto, homem culto e inteligente, confessaram ser agentes do Serviço Secreto Português e após longa conversa conosco, desistiram de sequestrar Aníbal Bragança e "sumiram da área", como se diz na gíria. Na livaria Ideal, o senhor Silvestre Mona, ao nos ver meio tristes, falava a frase: "Olha o azul do céu", depois Carlos Mona, seu filho, assumiu a direção da livraria e sebo Ideal, onde grupos de intelectuais se reuniam e lançavam seus livros. Dentre eles, podemos citar José Cândido De Carvalho, Luís Antônio Pimentel, Agripino Grieco, Sávio Soares De Souza, dentre muitos outros. Muitos fizeram enormes bibliotecas, o amigo Doutor Miguel Pereira Fernandes coneguiu formar uma biblioteca de aproximadamente 100 mil livros, perto dele, consegui chegar aos 5 mil. O professor Ulianov Pedrosa, filho do renomado artista plástico Israel Pedrosa, também frequentava as livrarias. Eu pessoalmente tive o prazer de se não ser o primeiro, com certeza um dos primeiros ao ouvir do mestre Israel Pedrosa a seguinte frase: "Sérgio, acho que agora vou colocar as pesquisas nos seus devidos lugares, pois descobri com certeza, a teoria da cor inexistente de Gothe.", não deu outra. As livrarias de Niterói eram o nosso reduto e refúgio.

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