Na rua Belisário Augusto existe uma pedreira na qual uma mata relativamente alta e na época, repleta de animais silvestres, fazíamos passeios por toda Icaraí e boa parte de Niterói. Na citada rua, mais precisamente nº 80, apt.101, residia minha avó materna Joana Matos, mãe do meu tio Pedro Rocha Matos, dono da construtoras Guanabara, JCMartins e Colúmbia, sendo pessoa influente junto aos meios políticos governamentais e foi quem construiu os primeiros prédios em Niterói, sendo inclusive amigo de um grande investidor acusado na época de quase quebrar bolsa de valores. Porém seu filho, intelectual Carlos Eduardo Matos, simpatizante do PCB, foi preso e levado para a Ilha Das Cobras. Graças à influência paterna, foi solto, casando depois com a Sônia, filha de uns diretores da editora Abril.
Estando como responsável pelo apartamento de minha avó que viajava, o Ike, junto com o Franklin, amigo do Carlos Eduardo, popular Cadu, me pediram o apartamento para fazer uma reunião de um grupo simpatizante da guerrilha urbana. Franklin morava em uma pensão chamada de Mundo Cão, localizada na rua Moreira César, esquina com Mariz e Barros. Na reunião de vinte pessoas a qual não pude participar, foi levado uma mala cheia de livros subversivos, que foram lá deixados sob minha guarda no final da reunião do que foi o início do movimento MR8, fundado em Niterói. Ao voltar de viagem, minha avó falou que homens de terno tinham vindo lhe pedir a mala lá deixada, falando em nome do Ike, que negou categoricamente ter mandado alguém pegar a encomenda. Provavelmente era agentes policiais. Passado os tempos, encontrei o Franklin, já membro do grupo guerrilheiro Var Palmares, que revoltado criticava o fato de ter sumido o dinheiro do cofre do governador Ademar de Barros, guardado no Copacabana Palace, no Rio De Janeiro, que defendia as posições assumidas elo capitão Lamarca, morto em 1971. Eu notava que as esquerdas estavam divididas e partiam para uma estratégia de resistência facilmente vencida, pois o governo fazia propagandas na televisão que mostravam o depoimento de vários guerrilheiros arrependidos e também mostrava soldados e policiais com as famílias, dizendo : "Eles também são brasileiros". Na época da reunião, falavam que a pedreira poderia servir para treinamentos e guardar materiais.
Eu gostava muito de panfletar, jogando papéis nos escritórios do meu tio, do alto dos prédios com o apoio dos seus funcionários. Existia um vira-lata chamado de Radar, um cão de rua muito querido no bairro. Quando a jovem militante Verônica passeava com o animal na coleira pelas ruas, era o sinal para pegarmos os panfletos e os distribuírmos pela cidade sempre as 16:00 horas. No mês de julho vários baloeiros soltavam seus balões na cidade com dizeres anti-militaristas.
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